Socorro
O último longa de Sam Raimi
Socorro (Send Help, 2026), de Sam Raimi
Linda está num voo com machos tóxicos de seu trabalho. O avião sofre um acidente drástico e só ela e o chefe sobrevivem. Vão parar numa ilha deserta, reproduzindo então o motivo clássico dos filmes de naufrágio. Na ilha, a capacidade de sobrevivência dela é muito maior que a dele, então ela gosta da situação e encontra ali a oportunidade de virar o jogo da opressão. Ela até vê um barco do outro lado da ilha, mas recua no pedido da ajuda. Ainda era cedo para o idiota aprender a ser gente. A inversão de papeis é tão alegórica que na ilha deserta ele vai ficando acabado, o que é normal, enquanto ela vai se tornando mais bonita, mais dona do pedaço. Inverossímil? Sim, os senhores verossímeis de que sempre reclamava Hitchcock devem ter se contorcido na poltrona, se é que perceberam alguma coisa entre as visitas ao Instagram. E o fato de futuramente aparecer uma explicação que torne esse embelezamento relativo verossímil, felizmente, não chega a ser frustrante.
Meses atrás, Eduardo Aguilar deu a bronca no Facebook. Disse que nenhum crítico comparou o filme com Por um Destino Insólito (1974), de Lina Wertmuller, o que, para ele, era mais um sinal da pobreza da crítica atual. Filipe Furtado acabou de morder a isca e fazer uma comparação entre os filmes em seu Substack. De minha parte, não entendo por que o esquecimento de um filme ruim de uma diretora medíocre seria sinal de qualquer coisa, mas vá lá, não tem muito tempo que revi o filme da diretora italiana para uma live da Versátil. Não sei em que a visão de um ilumina o outro. As semelhanças entre eles me parecem bem menos interessantes do que as inúmeras diferenças (e o Filipe confirma minha lembrança). Logo, penso, melhor não falar do filme da Wertmuller. Até porque ela tem coisas melhores na filmografia. Sorry, Aguilar.
Quem se incomoda com spoilers, por favor, pare de ler aqui.
A questão da culpa, no final, me lembrou Hitchcock, também porque estou revendo seus filmes. A ideia de queda passa por toda a obra do mestre, como bem notou Noel Simsolo. A ilha e o fantasma que volta para assombrar quem o matou remete a The Pleasure Garden (1925), o primeiro longa. Curioso também que só fica claro o amor do chefe por sua noiva depois que ele encontra o cadáver dela na areia. Antes ele parecia indiferente. Mesmo no escritório, quando a apresenta, parece mais protocolar, automatizado no papel do noivo atencioso do que realmente interessado nela. O período na ilha o humanizou ao menos um pouco. Não basta para o salvar da vingança de classe. Socorro é bem divertido. Mas o Filipe tem razão. É Raimi em terreno seguro, rodeado de mediocridade, o que o faz parecer melhor.
Sérgio Alpendre

