Os Esquecidos
A primeira obra-prima de Luis Buñuel no México
Os Esquecidos (Los Olvidados, 1950)
Por Sérgio Alpendre
Um marco em vários sentidos na carreira de Buñuel. Em primeiro lugar, é o filme que marca seu retorno aos holofotes do grande cinema, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a boa fase do cinema mexicano, que não se resumiu a ele nos anos 1950 e já tinha um bom punhado de filmes memoráveis na década anterior. Segundo porque alia sua linguagem onírica a um forte cunho realista, sintonizando-se com os frutos que o neorrealismo deixou por toda a Europa. Terceiro porque é o primeiro filme em que tem como diretor de fotografia o grande Gabriel Figueiroa, numa parceria que seria repetida em outros filmes memoráveis. Quarto porque inaugura uma série de grandes filmes interrompida por apenas um longa que pode ser chamado de menores (Una Mujer Sin Amor). Poderíamos acrescentar um quinto, sexto ou até sétimo motivos, mas seriam derivados dos quatro levantados acima.
Em Os Esquecidos acompanhamos as jornadas de jovens e crianças pobres da periferia da Cidade do México. O protagonista é Pedro, que acaba sendo cúmplice de um assassinato cometido por Jaibo, o que de certo modo os une. O pai de Pedro morreu há cinco anos e a mãe cuida dos quatro filhos com dificuldade. A cena em que Jaibo a seduz é brilhante, seguida de uma outra em que a mãe nega o toque de seu próprio filho. Há uma clara transmissão de culpa e maldade, de Jaibo para Pedro, em que Pedro é uma espécie de falso culpado, em uma das inúmeras relações que podem ser feitas entre Buñuel e Hitchcock, para além da admiração mútua que ambos nutriam um pelo outro.
Em meio a esse realista retrato da periferia de uma cidade grande e da vida de seus pequenos (ou não tanto) delinquentes há alguns momentos que podemos chamar de buñuelianos. O cego tentando curar as dores de uma mulher esfregando-lhe um pombo branco, a crueldade de Jaibo com o homem aleijado que pedia esmolas (além de outras crueldades), o sonho com a mãe e o pedaço de carne crua, o ovo atirado na lente da câmera por Pedro (ou seja, na cara do espectador), Pedro matando duas galinhas a pauladas, além, obviamente, do desfecho, que serve de motivo para que Truffaut colocasse os textos de Bazin sobre Buñuel no livro O Cinema da Crueldade.
O cineasta é muito hábil em fazer com que todos sejam vítimas das circunstãncias, e que Pedro tenha chegado muito perto de sua redenção. O meio em que vive não permitiria isso, e por esse motivo não havia a menor possibilidade de fazer um final feliz.

