Os Enforcados
Bom longa de Fernando Coimbra
Este longa de Fernando Coimbra é muito amado. Amor curioso, se considerarmos que no início parece uma espécie mais comportada de Que?, do Polanski, aplicado ao filme criminal. E um filme como esse, que gira em falso o tempo todo, ou se aceita e entra no embalo ou ele te escapa. Que tenha escapado a pouca gente é mais uma surpresa do cinema brasileiro no ano. Pois justamente por essa chave maluca ele também é incompreendido, talvez como reação de poucos à empolgação de tantos. É fato que em sua segunda metade o filme se torna mais convencional, entrando mais diretamente no thriller e abandonando o tom mais cômico, mas não as surpresas. Talvez tenha sido esse o motivo de sua maior aceitação entre os cinéfilos.
Um preconceito autorista me afastava dele. Dos curtas de Coimbra que vi, gosto com reservas do celebrado Trópico das Cabras, e acho Magnífica Desolação apenas razoável (não lembro se foi celebrado à época). O Lobo Atrás da Porta, seu primeiro longa, me pareceu um equívoco quando o vi em Paulínia, e caiu ainda mais na memória. Isto me afastou também do documentário Aqui Deste Lugar, que realizou com Sérgio Machado, e dos projetos que levam o selo Netflix, o longa Sand Castle e a minissérie What/If, da qual codirigiu apenas um episódio.
Pois curti bastante Os Enforcados, uma grata surpresa, pela trama engenhosa e pelo domínio narrativo. Talvez a experiência na poderosa do streaming, mesmo que não muito longa, tenha servido para que Coimbra se esmerasse num trabalho mais dependente de uma construção narrativa, como ele parecia perseguir desde os curtas. Talvez ele tenha visto que é possível fazer cinema comercial de qualidade numa escala mais regrada, ainda que Globo, Gullane e as agências de fomento sejam menos cerceadoras que a Netflix.
Os Enforcados é bem mais cômico do que eu esperava. Leandra Leal está ótima. Descoberta como uma adolescente rebelde em A Ostra e o Vento, faz muito bem uma mulher gananciosa, uma Lady Macbeth do subúrbio carioca, dondoca tola que está a um degrau de ser uma Magda, personagem de Marisa Orth em Sai de Baixo, o que mudaria o status do filme, da ironia para o besteirol. Não seria o ideal, e não acontece aqui. Porque sua personagem é atabalhoada, tolinha, mas tem uma certa inteligência de manipulação e um bom instinto de autopreservação.
Irandhir Santos também arrasa como um herdeiro do jogo do bicho que precisa lidar com as traições e as puxadas de tapete inerentes aos lugares do dinheiro. Era preciso ter dois grandes atores em ótimos momentos para tudo funcionar. Felizmente, tivemos essa bela conjunção entre dois dos maiores do cinema brasileiro desde a retomada. Irandhir fecha um acordo com seu comparsa Thiago Thomé, mas quando dá a mão (estranhamente, a esquerda), deixa o dedo do meio, aquele usado para ofender, levantado na direção do parceiro. Pode até ter sido sem querer, mas o dedo levantado meio que diz o quanto se pode confiar nesse personagem, ainda mais quando manipulado pela esposa (Leal).
Depois tem uma reunião de Irandhir com os outros bicheiros, muito mais experientes e malandros que ele, daqueles bicheiros de caricatura, com camisa aberta e medalhão no peito. Eles, aliás, estarão no momento Todos Porcos do filme (quem viu o magnífico filme de Imamura vai lembrar). Irandhir com um curativo ridículo no nariz (como Jack Nicholson em Chinatown, também de Polanski), gaguejando e assumindo, mesmo na negação, ter matado o tio. E um cara com pinta de ser violento atrás dele, impaciente. Essa reunião mostra o tom do filme, que já se anuncia farsesco no plano inicial, em que um recuo da câmera revela, depois de vermos a paisagem do Rio de Janeiro, um boneco com olhar zombeteiro. E as reações desastradas de Leandro Leal completam o tom. Bem trapalhona essa Lady MacBeth. Ou ela se faz de sonsa para conseguir o que quer?
Farsesco, mas com alguma seriedade para cativar o espectador, na linha do que os irmãos Coen fizeram de melhor. É cinema de atriz e atores nos mais variados níveis de participação. Todos muito bem, e ainda tem sacadas bacanas de roteiro e direção.

