Mostra Farol
Começa neste 20 de março no Cinesesc, em São Paulo
Curiosa, além de muito interessante, essa mostra Farol, que começa neste 20 de março no Cinesesc, em São Paulo. Depois de explicada a ideia, não me parece clara a escolha dos títulos, no sentido de que não percebo uma espinha dorsal justificando as escolhas, a não ser em alguns agrupamentos de dois ou três filmes, conforme forçarmos algumas semelhanças de tema ou estilo (o release destaca os filmes em pares). Tampouco percebo ligação forte entre os filmes novos e os antigos (a não ser quando óbvia: a dos dois Cronenbergs, por exemplo), ou qualquer indicação numa seleção que levasse às escolhas da outra.
Precisa? Não necessariamente. Qualquer pretexto é bom para a exibição de filmes, ainda mais quando alguns merecem mais holofotes, tendo passado em brancas nuvens por outros festivais, caso de Fuck the Polis, de Rita Azevedo Gomes, ou A Sombra do Meu Pai, de Akinola Davies, ambos exibidos na 49ª Mostra SP. Na conexão entre Portugal e Nigéria temos dois exemplos de belo cinema, cada um com sua beleza na conjunção entre memória, imagem, cidade e história.
No país irmão, temos ainda O Riso e a Faca, co-produção com o Brasil com que Pedro Pinho supera, mas não muito, seu mediano A Fábrica do Nada. Que diabos! O filme tem sido amado por muita gente boa. Não custa conferir. Posso muito bem estar errado. O momento em que os personagens cantam a música do Tom Zé que dá título ao filme pode até emocionar quem adora a música (é o meu caso), mas é um daqueles momentos meio tolos de poesia pré-fabricada, com personagens cantando felizes, piscadelas óbvias para o público.
Se nos deslocarmos um pouco para a direita no mapa, partindo de Portugal, encontramos o espanhol Surda, de Eva Libertad, escolhido para a abertura. Um dos filmes mais surpreendentes da mostra, é uma linda trama de medo e superação de uma mãe surda com medo de não ter meio de se comunicar com a filha recém nascida. Ela praticamente torcia para que a filha tivesse nascida surda também, para já ter uma educação com sinais, o que não aconteceu. Seu isolamento familiar pode ser contornado com alguma paciência e compreensão de todos ao seu redor, incluindo ela mesma. O último terço é de enorme beleza, colocando o filme em outro patamar.
A volta ao passado para acertos de contas políticas está tanto em A Sombra do Meu Pai quando em Palestine 36, de Annemarie Jacir, diretora do bom Wajib. Quase seis décadas separam as tramas dos filmes, mas há semelhanças entre elas e entre as estratégias de seus diretores. No primeiro, o período (1993) em que as eleições foram suspensas pelo governo militar da Nigéria e o sentimento de dois irmãos ainda crianças observando a agitação e o envolvimento do pai com a opressão política. Em Palestine 36, a inssurreição da Palestina contra o Império Britânico no momento, 1936-1037, em que judeus chegavam em peso da Europa, fugindo do nazismo, e uma promessa de união pacífica entre os povos estava no ar.
Dois filmes exploram o mundo da arte nos anos 1970. O Dia de Peter Hujar, de Ira Sachs, imagina o encontro entre o fotógrafo Hujar e a escritora Linda Rosenkrantz a partir de uma gravação em áudio de uma entrevista feita em 1974. Diamantes, de Ferzan Ozpetek, é um melodrama sobre duas irmãs figurinistas incumbidas dos costumes de um filme de época em algum momento dos anos 1970.
E o horror, temos? Em termos. Tanto Alpha, de Julia Ducournau, quanto O Senhor dos Mortos, de David Cronenberg, entram no gênero conforme a conveniência, e podem agradar ou desagradar os fãs xiitas conforme a abertura que eles tiverem para filmes que somente tangenciam o horror. Em Alpha, o problema é um vírus. O terror vêm do desconhecido, também, embora não seja o sobrenatural, mas uma anomalia da natureza. É um filme de muita tristeza. O Senhor dos Mortos também é triste, a seu modo, com uma curiosa ligação com O Quarto Verde, de Truffaut, nas pessoas que não querem deixar seus mortos se afastarem. para isso, elas contratam os serviços de Vincent Cassel, que instala câmeras em espécies de cavernas mortuárias, para monitoramento dos mortos. Há quem veja as pessoas dormindo no BBB. É justo esperarmos que um próximo passo seria esse. O filme de Cronenberg é muito superior, mas o de Ducournau não é de se jogar fora.
Não tive acesso, infelizmente, a dois filmes que me interessam bastante: Aqui Não Entra a Luz, de Karol Maia, e Dolores, de Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. Caso tenha acesso a eles nos próximos dias, farei um adendo a este artigo.
Na verdade, é função da curadoria pensar nas aproximações. Por vezes, elas só são perceptíveis numa segunda visão, ou só para a pessoa que as percebeu mesmo. O que não as invalida de forma alguma. Programação é justamente isso e muitas vezes as mais interessantes surgem com as associações mais improváveis.
Mais abaixo, anotações sobre os filmes do eixo inéditos (algumas são tiradas do letterboxd, pois eu já tinha visto os ffilmes há tempos). Antes, uma passada pelo outro eixo da mostra.
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Rumo aos antigos, como diria Luiz Tatit, temos o chamado eixo memória, que engloba alguns filmes mais ou menos recentes de gosto duvidoso, como Dente Canino (2009), de Yorgos Lanthimos, e I Will Follow (2010), de Ava DuVernay, juntos de filmes que mantêm força com o passar dos anos, casos de A Maçã (1998), de Samira Makhmalbaf, Gosto de Sangue (1984), de Joel e Ethan Coen, e As Virgens Suicidas (1999), de Sofia Coppola. Inevitavelmente, o número de acertos é maior. Há um longa do mesmo diretor em cada mostra. O Cronemberg do eixo inéditos, O Senhor dos Mortos, apesar de ser um dos melhores realizados por ele após Marcas da Violência, de 2005, perde em força e invenção para o Cronenberg do eixo memória, Calafrios, de 1975, seu primeiro longa, digamos, profissional, após dois filmes de garagem: Stereo (1969) e Crimes of the Future (1970).
É bacana, dentro desse eixo memória, a lógica de pegar trabalhos iniciais de cineastas consagrados. Podiam ter escolhido melhor os cineastas, já que nomes superiores a Lanthimos, DuVernay e mesmo Linklater não faltavam. O primeiro de Rita Azevedo Gomes, por exemplo, O Som da Terra a Tremer (1990), para ficar em uma diretora que tem filme recente na mostra e facilitar a rima de eixos, é muito superior a todos esses filmes. Ou James Gray. Ou Patricia Mazuy. Já as carreiras de Claire Denis, Nelson Pereira dos Santos, Beto Brant, nomes presentes na mostra só com seus primeiros longas, merecem mesmo lentes de aumento e retrovisor em seus primeiros trabalhos, ainda que Nelson Pereira dos Santos seja bem manjado e seu filme esteja meio deslocado pela época. Temos então, respectivamente, Chocolate (1988), Rio 40 Graus (1955) e Os Matadores (1997) para mostrar que o talento desses cineastas já estava impresso em seus primeiros longas. Mas e os filmes mais recentes deles? OK, não precisa, fica só o Cronenberg para compararmos.
Aliás, Slacker (1990), de Richard Linklater, representa para esse diretor o que Calafrios representa para Cronenberg, um tipo de estreia em baixo orçamento depois de filmes em baixíssimo orçamento. Linklater sempre foi irregular, desde o começo, mas Slacker tem seus momentos na representação de uma juventude que ainda não sabe direito que caminho seguir.
O grande achado da Mostra no eixo memória, sem dúvida, é a escolha de Robocop (1987), obra-prima em que o holandês Paul Verhoeven já denunciava a sociedade fascista dos Estados Unidos, fundada nas armas, no dinheiro e no poder de destruição. O neoliberalismo dos anos Reagan estava em alta e Verhoeven entendeu o futuro sombrio que nos esperava a partir do imperialismo de nova faceta que se iniciava ali. Verhoeven realizava sua mise en scène elegante, numa decupagem que privilegia planos longos dentro de uma noção de continuidade. É como se fosse um cineasta americano dos anos 1930, influenciado por Murnau, mas atualizado para os anos 1980. Além disso, é de uma época em que Hollywood ainda permitia filmes muito críticos aos EUA, o que estava há poucos anos de acabar.
FILME DE ABERTURA
Sorda (2025), de Eva Libertad (contém spoiler) *
Mulher surda tem receio de que sua filha com o marido ouvinte nasça surda também. Quando nasce aparentemente normal, seus sentimentos são dúbios. Intimamente, ela gostava da ideia de ter mais uma igual a ela em casa. Saiu uma igual ao marido, o que aumentou o seu sentimento de deslocamento do mundo.
Lembrei muito de meu pai (1933-2022), que muitas vezes se sentia excluído das conversas, mesmo em sua própria casa, pela surdez. Nos últimos anos, escrevíamos tudo para ele em blocos de anotações espalhados pela casa. Ainda assim, era duro. Percebíamos que ele sofria por nos dar trabalho.
Bela a cena em que ela coloca o tapa-ouvidos na filha, que o rejeita. Queria privá-la por alguns instantes do estímulo auditivo. Não deu certo. Com os amigos do marido, a mulher se sente deslocada, ele não se sente deslocado com os amigos dela porque aprendeu a língua dos sinais.
Filme simples, sensível na medida, com um par de cenas tocantes e alguns acertos no desenvolvimento narrativo. Cresce bastante na última meia hora, quando o desconforto da protagonista é grande e passamos a ouvir do mesmo modo que ela. Ruídos abafados e incompreensíveis ou um som de radinho de pilha quando ela coloca os aparelhos auditivos. Não é um truque novo, e em certo momento lembra um curta delicioso do Kiarostami (O Coro, de 1982). Faz a diferença o modo como a diretora tratou todo esse momento até o encerramento do filme em chave emocional alta.
* acho esse lance de spoiler uma bobagem, ainda mais se o filme é bom, mas ainda há quem se revolte com eles.
FILMES RECENTES - ANOTAÇÕES
Alpha (2025), de Julia Ducournau
Um vírus se espalha pelo mundo, transformando as pessoas em mármore e suas tosses em fumaças de pó. Ao mesmo tempo, o tio de Alpha, a protagonista, é viciado em drogas e vai morar com ela e a mãe. A menina de 13 anos tem um processo acelerado de amadurecimento com o sofrimento que observa ao seu redor. Antes, porém, as bobeiras da adolescência começam a cobrar seu preço. Alpha não é um filme de horror tradicional, pois o horror aqui não vem do medo do sobrenatural, mas do medo de um vírus e de seus efeitos, da tristeza profunda, da ausência de saída. Muito mais para Epidemia do que para outros exemplos de body horror, ainda que suas estratégias sejam as mesmas destes últimos.
Diamantes (Diamanti, 2025), de Ferzan Ozpetek
Um diretor reúne diversas atrizes para um filme que pretende fazer. Sem adiantar muito do que se trata, a não ser que será sobre o poder das mulheres. Uma delas apelidou o filme de “Vaginódromo”, ao que o diretor prontamente respondeu que não se pode intitular um filme dessa maneira. É de fato uma coleção de atrizes do cinema italiano contemporâneo: Jasmine Trinca, Elena Sofia Ricci, Luisa Ranieri, Vanessa Scalero, entre outras. O meio imaginado para que elas ajam é o das figurinistas. E então o ambiente das atrizes começa a se misturar com o de suas personagens. Pena que Ozpetek não seja o que chamam de maestro. Pelo contrário: é um diretor limitado, dependente demais de um elenco em estado de graça e de uma trama inspirada. Chega perto da primeira condição, fica bem longe da segunda. No retrato de um homem deplorável, como tantos existentes no mundo atual, ele só consegue imprimir o sadismo, jamais o olhar crítico ou a observação fria que deixa o julgamento com o espectador. E no melodrama, especialidade italiana (e turca, lembrando as origens do diretor), o filme jamais encontra o tom. Os poucos méritos (não muito intensos) residem na relação entre as irmãs figurinistas, que rende alguns momentos bonitos no meio do melaço, e num caráter documental sobre a importância do figurino no cinema.
Fuck the Polis (2025), de Rita Azevedo Gomes
Muito se fala de Manoel de Oliveira e João César Monteiro, cineastas incontornáveis da chamada escola portuguesa. Fala-se também de Syberberg, cineasta alemão importante para o cinema português (lembro do destaque que teve, nos anos 1970, na extinta e breve revista Cinéfilo). A própria Rita prefere reivindicar Werner Schroeter como sua referência. A meu ver, é com Marguerite Duras que a cineasta portuguesa desenvolve uma relação de continuidade e contraposição. É nesse nível que opera uma das cineastas mais criativas do cinema contemporâneo. Mais do que qualquer outro filme de sua autoria, é Fuck the Polis que deixa essa comparação mais evidente, uma comparação mais de qualidade do que de similaridade, nunca de imitação. Em alguns momentos, um filme impressionista. Em outros, pós-impressionista.
Na Folha de S.Paulo:
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2025/10/fuck-the-polis-e-belo-diario-que-registra-viagem-e-abstracoes.shtml
Palestine 36 (2025), de Annemarie Jacir
Ficamos muito perto de ver este filme na última edição da Mostra SP. Infelizmente, não conseguimos. Pude ver agora, na cobertura da mostra Farol.
Confesso que demorei um tempo para me acostumar a ver o intérprete do oficial britânico como outro ator que não o brasileiro Matheus Nachtergaele. Pior para nosso ator que seu personagem é um oficial nojento. Vai que algum maluco confunde ator com personagem e o agride na rua.
1936, ontem como hoje, nem precisa dizer. Em 1936 começava a insurreição contra o Império Britânico em diversos vilarejos palestinos. Ao mesmo tempo, judeus fugiam da Europa por causa do nazismo. Começava ali uma disputa por terras que graças à crueldade humana não sabemos quando irá terminar, só que não terminará bem. Manda a cartilha que num drama histórico a História seja mais um pano de fundo para o drama humano. É necessário nos identificarmos com um personagem, seja para o abandonarmos na metade do filme, seja para irmos com ele até o fim. Aqui, é a tomada de consciência de um jovem (e de outros personagens) para a necessidade de resistência de seu povo contra a tirania imperialista.
Palestine 36 não foge do habitual tipo de filme que mostra um período conturbado da história, com o peso da reconstituição de época atenuado pela similaridade com a época atual e seus conflitos. Ontem como hoje, o homem prima pela intolerância e pelo desejo de oprimir, contando, para isso, com a ajuda daqueles que só pensam em dinheiro. Annemarie Jacir filma com classe, mais uma vez. Não evita a catarse, cenas em câmera lenta e personagens chorando de desespero. Nem sei se era possível dentro desse registro mais convencional.
Peter Hujar’s Day (2025), de Ira Sachs
Uma entrevista em áudio entre o fotógrafo e a escritora e amiga Linda Rosenkrantz dão a Ira Sachs a chance de especular o encontro em imagens, com Ben Whishaw e Rebecca Hall nos respectivos papeis. Cria-se um retrato da vida de artistas novaiorquinos nos anos 1970, seus assuntos, suas preocupações. A ideia é um tanto limitada, mas Sachs a trata com alguma inteligência e a curta duração está felizmente ajustada ao tempo em que a experiência começa a cansar.
Queerpanorama (2025), de Jun Li
Bem filmado e fotografado em preto e branco, com uma proposta sólida de mise en scène e uma temática meio Zelig, parece sobreviver de um certo álibi cultural, trazendo algumas cenas desafiadoras dentro de um todo meio monótono, que alterna diálogos mais e menos interessantes.
O Riso e a Faca (2025), de Pedro Pinho
Um português, Sérgio (Sérgio Coragem), perdido em outro mundo, não só geográfico, mas principalmente de costumes. O mundo da década de 2020. Sérgio é um bobão que procura se enturmar meio desajeitadamente. O melhor do filme é Guilherme (Jonathan Guilherme), o brasileiro homossexual que coloca Sérgio na parede nas questões sexual, colonial e racial. Podia virar lacração, mas o diretor e o ator evitam isso muito bem. Sérgio fica perdido o tempo todo. É um chato incorrigível. O filme cresce sempre que Guilherme está em cena. E Diára, personagem de Cleo Diára, uma trambiqueira com muito carisma. Diára e Coragem atuaram em Verão Danado, de Pedro Cabeleira. Antes de descobrir isso, já estava achando os piores momentos de O Riso e a Faca meio parecidos com Verão Danado. Felizmente, Pinho tem mais recursos.
O Senhor dos Mortos (The Shrouds, 2024), de David Cronenberg
Os mistérios do corpo, os mistérios da morte. Cronenberg é atraído pela tecnologia, mas sempre desconfia dela. Há algo de Dead Ringers, com sinais invertidos. São duas irmãs (gêmeas?), vividas por Diane Kruger. Elas parecem manipular Karsh, o protagonista. Mas nesse filme, quem não manipula alguém? Karsh manipula a morte, fascinado pela decomposição de cadáveres. Ele vê mesmo algo belo nisso. Ele é um pouco, ou muito, como Cronenberg, como escreveu o Luis Miguel Oliveira, mas não deixa de ser uma versão palatável (graças a Cassel) do Elon Musk, encantado por brinquedinhos tecnológicos.
A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow, 2025), de Akinola Davies
Lagos, Nigéria, anos 1990. Dois irmãos chegam com o pai e encontram um mundo novo da cidade grande. A política conturbada da época era mais sentida na capital. As eleições daquele ano haviam sido canceladas pelo governo militar. Respirava-se um clima de opressão e incertezas. Pior era a crueldade dos que se sentiam empoderados pelas fardas.
Filme de alguma sensibilidade e beleza. As reações das crianças às reações dos demais com a presença do pai é um espetáculo à parte. A textura da imagem, curiosamente, remete aos filmes africanos dos anos 1990, e estou pensando num sentido amplo mesmo, não só na chamada Nollywood. Talvez até seja pela maneira como vemos, hoje, os filmes africanos daquela época, diferentemente da maneira como víamos no momento em que foram feitos. Ainda que um visual mais solar e terroso, como vemos no filme de Davies, fosse comum à maioria dos cinemas africanos.

