Mad Men
Uns pitacos sobre minha série contemporânea preferida.
Não sou muito de ver séries. Penso a respeito delas o que Antunes Filho pensava do teatro: “para ser bom, precisa ser estupendo”. Das poucas séries recentes que vi, Mad Men, criação de Matthew Weiner, é minha preferida. Tanto que resolvi rever, antes de ver muitas outras que me indicaram.
Muito da decepção que se tem com as duas últimas temporadas – em alguns casos as três ou até quatro últimas – vem da percepção de perdição total do protagonista Don Draper. Ele chega a se tornar um homem vil, quase insuportável, enquanto até a quinta tinha muitos matizes que atenuavam esse julgamento, a ponto de nos deixar divididos. Era um cara duro e sacana porque a vida o tinha ensinado a ser assim. Mas havia uma ética ali, que o fez ficar enfurecido quando foi voto vencido na ideia dos sócios de prostituir Joan para conseguir uma conta, por exemplo.
Nesta revisão, mudei de opinião a respeito da série. Ela não cai na sexta e na sétima temporadas. Ao menos, não muito. O que muda é a órbita. Não mais em torno só de Draper, mas em torno também de todos aqueles que passaram por sua vida em algum momento. A decadência de Draper ocorre em paralelo com a acomodação de Roger Sterling, o crescimento das crianças Draper, e a ascensão profissional de seus pares, Pete Campbell sobretudo, mas também Bob Benson, Harry Crane e, principalmente Peggy Olson e Joan Harris, ainda que para elas essa ascensão tenha um grande custo.
As trocas de olhares e os diálogos com múltiplos significados são um trunfo de toda a série. É sensacional, por exemplo, a informação que Pete Campbell passa a Don Draper, sobre a compra da empresa por uma maior, inglesa, em meio à crise dos mísseis. Depois de ter dado a informação, Campbell fala da crise, mas sua fala serve direitinho para a situação diante da fusão com a empresa maior. Da mesma forma, quando mais adiante cada sócio precisa cobrir um rombo nas contas e Campbell não pode, ele fica sabendo que Draper cobriu sua parte. O olhar que eles trocam é de agradecimento da parte de Campbell, mas também uma compra de seu silêncio sobre o segredo que poucos sabem, e que ele havia descoberto em uma das temporadas passadas, sobre o passado misterioso de Don Draper.
Mas o aspecto que mais me interessa na série, desde a primeira temporada, é o modo como passeamos pela História dos EUA, e como os eventos mais importantes dessa História mexem com os personagens. Assim, a crise dos mísseis, os assassinatos dos Kennedy e de Martin Luther King, a Guerra do Vietnã, a eleição de Nixon e de outros presidentes, a pisada na Lua.
Como a maior parte da série se passa nos tumultuados anos 1960, anos de mudanças profundas na sociedade americana, e não só, temos em Don Draper um mausoléu de terno, gravata e chapéu, um homem que não sai dos anos 1950, tentando lidar com mudanças de paradigmas que não entende. Apesar disso, ele sempre mostrou interesse em observar criticamente essas mudanças e incorporar o que observou nos comerciais que ajuda a criar. A série vai de crise em crise, de renascimento em renascimento. O último é bem sugerido por um sorriso maroto, num final acachapante.


Gostei do texto. Eu demorei pra engajar na serie. Me lembro que cheguei a dormir nos primeiros episódios, abandonei por uns meses e depois retomei e maratonei até o fim. O significado que dei pra ela é que cada temporada é como se fosse um disco e cada episódio uma música.
Pra mim foi uma das séries mais bem produzidas justamente por se ater a uma década. A mesma onde viveram os Beatles que também só duraram naquele período. E acho que o momento que representa bem o Don Draper que você descreveu (e de certa forma a série) é a cena do episódio “Lady Lazarus” na temporada 5 quando ele ganha o disco Revolver da Megan e ele vai escutar “Tomorrow Never Knows”.